domingo, 22 de abril de 2012

Passos trêmitos ou A hora do adeus.

          A velha era pálida e trêmula.
          Sua palidez era agonizante no reflexo do espelho; os lábios arroxeados tinham a completude com os olhos fundos e nitidamente escuros. Possuía um terço enorme - um rosário se não faltassem as últimas ave-marias - objeto que a caracterizava perfeitamente, pois era companhia de sua alma e se confundia com seus dedos. Morava em uma casa mal iluminada; as janelas permaneciam fechadas desde a morte de Damião, o velho. A velha recebia objetos, alimentos do menino, que fazia todos os mandados dela, inclusive durante a madrugada - único período em que a velha saía de casa. Ela era pálida.
          Apenas levantara-se e já sabia que nada seria ao acaso. Ela sorria, e seus olhos deixavam transparecer a deslumbrante magia do ato. Andava. Eram frios os passos da mulher que movia lentamente os braços; transpassava os anos com frêmitas passadas, tremores picométricos.
         Andava. Parecia algo mordaz sem a sincera descrição final. Era algo mágico, En passant, a ser revelado em um ato praticamente imperceptível; o perceptível reside no imperceptível - isso é Lispector, leitor - pois quanto mais me camuflo, mais vivo.
         Ave-maria, cheia de graça...Ave-maria, cheia de graça...Ave-maria, cheia de graça...Ave-maria, cheia de graça... Ave-maria, cheia de graça...Pelo sinal da santa cruz..
         Mas por que as palavras se confundiam tanto? Seria alguém mais a falar ou estaria a mulher em constantes devaneios do acaso? Fora..fuu! Ela havia recordado a noite em que Damião partira; as portas ficavam abertas; havia orações, lágrimas e gritos. Ave-maria, cheia de graça..Ave...aahh..AAHH. Ave-maria, chee..aahh..AAHH..Respiração normal..AAHH, lágrimas.
         Andava. Sentaria, se possível, mas as passadas se tornaram intensas; porém, rápida, a velha sorria. As suas engrenagens de carne, assim ela outrora teria dito, seriam reflexos de atos ilusórios. Não seria ela mesma, seria "souvenir" de menina. Eu desejaria contar hoje a hora em que ela, a velha, viu a cuia com a vela acesa no rio, mas o menino entrou, e ela saiu da descrição do autor.
         O menino não era seu neto, nem seu vizinho; o menino se perdera do pai quando - eu ia dizer quando era um menino, você entendeu - tinha sete anos, mas agora tem treze. Ele vive na rua, solto, quase com fome, mas ele ama a velha, ele come parte da comida dela. Ele é trêmulo, mas corado. Treze anos, nutrido, cabelos escuros. Nada mais do menino.
         A cuia, por favor - clama a mente fofoqueira do autor.
         A velha é magra, velha, branca, pálida, cabelos brancos. Ela era pálida e trêmula.
         Um cheiro-verde, coentro e coloral; um real de bananas e um litro de leite. Ele deslizava pelas ruas em busca de cumprir cada passo desejado pela velha, no papel. Já amassado e molhado, mas nas mãos de Benjamin, o Boticário.
         Não temos bananas, menino - falou Benjamin. Eu sei, senhor, mas tenho que levá-las.
         A escuridão ganhou, mais um vez, o espaço da luz intrusa.
         Ave-maria, cheia de graça...
         A velha é magra. O menino é nutrido. Sob análise cuidadosa do autor, verás leitor, que nós falávamos a verdade.
         O velho, a velha, o menino, Benjamin, o terço. A cuia, a cuia..
         Vela acesa na cuia sobre o rio, correnteza sem motor, correnteza. Pode calcular o tempo. A velha era.. e é. Amanhecera e eu já disse tudo, bonne chance, leitor amigo. Caso tenhas em mente a tradução da história, peço que desfrute-a a sós, pedaço por pedaço, mordida a mordida. A velha é..

Bruna Custódio Rodrigues, a autora.


Texto analisado no Teatro José de Alencar, dias 07 e 22 de junho de 2011. Respostas encontradas; eles entenderam, eu não. Mas converso às vezes com o autor.



2 comentários:

  1. Vou ligar para Yolanda, saber o que ela entendeu!
    Bruna, esquecendo a falta de linearidade do conto, voc~e sabe muito bem narrar e transmitir emoções, parabéns!

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