quarta-feira, 19 de outubro de 2011

A História de Ben

Parte 1: Verde sem amarelo é azul.


Ben tem uma história interessante. Eu não contaria a história dele, mas ela incansavelmente povoa a minha mente, em perturbações lancinantes. Por onde começar?
Ben tem 17 anos, mora em Fiji, República de Fiji, cuja capital é Suva; ele passa a maior parte de seu tempo em casa, folheando livros enormes do acervo da biblioteca particular de seu pai, Phillipe, Sr. Phillipe para os nada próximos. Ben foi criado somente por seu pai, pois sua mãe falecera meses depois de ele nascer. A Sra. Phillipe, uma verdadeira Amélia, antes de morrer, deixou um caderno com anotações para Ben. Ele cresceu e nunca teve acesso às anotações, exceto uma noite, quando seu pai dormia, Ben, com 12 anos, abriu a gaveta secreta do Sr. Phillipe. Retangular, amassado nas pontas, como a maioria dos cadernos e dos livros que possuímos; então, a primeira página: "Para o meu amado e único anjo"- Sra. Phillipe. O menino guardou o caderno de volta na gaveta e, quase deslizando pelas paredes do corredor principal da casa dos Phillipe, chegou ao seu quarto. Nunca mais, desde aquele ano, Ben reabriu a gaveta. Numa manhã de outubro, por sorte, diria Ben, não era uma manhã de agosto- mês do desgosto - o jovem Ben dirigiu-se, como de costume, à Escola de Belas Artes de Fuji (EBAF). Sim, leitor atento, Ben era um artista, talvez dos mais notáveis e nada sensatos de seu tempo e, exatamente por isso, era por vezes confundido com os neuróticos e psicóticos de Fuji, que nada têm de diferente dos do Brasil, EUA, França. Coisas que se têm no mundo inteiro, é como o esconde-esconde brasileiro igual ao cache-cache francês. Isso, igual ao hide and seek inglês. Na definição de muitos psicanalistas modernos, o neurótico critica a realidade em que se insere, porém não a deixa; o psicótico cria outra realidade, a realidade dele, paralela a nossa, mas por vezes nitidamente perpendicular- "de perto ninguém é normal". O artista não, este sai completamente de sua realidade, mas constantemente retorna, porém nunca faz mesmo parte dela. Ben, jovem ainda e com uma carga artística de deixar babando qualquer aspirante a intelectual. O último quadro de Ben foi um balão, que ele denominou de Balão. Ele gostava de dizer o óbvio, e isso ficava constantemente na cabeça das pessoas, que imaginavam milhões de coisas, enquanto, na verdade, era tudo tão óbvio - "O óbvio é a verdade mais difícil de se enxergar." O que dizer de Ben com isso? Que o que ele enxerga quase ninguém vê? Mas ele vê o mesmo que você. Ele fazia um jogo de pinturas durante horas, mas que no final parecia uma mistura rápida de uma cor com outra, era como se ele usasse o azul, o vermelho e o amarelo em sequência, precisamente com a quantidade calculada e no final tivéssemos o azul, vermelho e amarelo misturados, somente, entende? Ben era um artista. Era uma manhã de outubro, quando, já na EBAF, Ben conheceu Flora. Flora era uma jovem de 19 anos, magra, alta, de cabelos pretos e bem lisos, olhos vivos, bem brilhantes; ela costumava ir à EBAF observar a criação de um artista, que fique bem claro, a criação e não a própria criatura. Ela gostava do processo, de cada passo, dos milímetros nos desenhos, nas cores, nos atos, nas letras. Flora sempre desejou ver a criação de Ben, porém, sempre que chegava ao recanto fabuloso dos artistas, nunca encontrava o autor do óbvio; ele passava a maior parte do tempo em casa. Flora passou exatos 36 minutos esperando Ben fazer a mistura das cores. Ben, finalmente, mergulha o pincel no mundo azul e amarelo dos 36 minutos, verde. Ela, finalmente, via a criação de Ben. Ela se aproximou dele e disse: "O que você pintará agora? Um gramado bem verde?" Ben, surpreso, olha para ela e diz: "Não, um gramado azul e amarelo, ele é colorido, entende?" 
Flora diz: "Pode continuar, eu só quero observar você". Durante três horas seguidas, Ben fez um gramado enorme, e havia inclusive o aroma do verde que se sente em ambientes naturais; o quadro parecia tão real, que era possível se sentir que em breve apareceria alguém, bem atrás da grama alta não cortada por Ben. O terreno era para golfe de um lado, futebol do outro, piquenique no centro e gente em breve surgindo. Ele terminou, colocou o pincel dentro da tinta e perguntou à moça: "Qual o seu nome?"
Ela disse: "Flora".
Ben pegou o pincel, lavou, mergulhou na tinta azul e escreveu no quadro: FLORA. Ele disse: "Não é gramado o nome do quadro, porque eu sempre uso o óbvio. Verde sem amarelo é azul."

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